RESUMO RÁPIDO (TL;DR)
Dados mais recentes mostram que as baterias dos carros elétricos estão a degradar-se mais lentamente do que muitos consumidores esperavam.
A Geotab registou uma degradação média de 2,3% por ano, enquanto a Recurrent indica que um elétrico mantém, em média, cerca de 95% da autonomia ao fim de cinco anos.
Para quem procura um elétrico usado, a capacidade atual da bateria ainda é mais importante que a idade ou a quilometragem, por isso este novo estudo pode vir a mudar o mercado de viaturas elétricas usadas.
O que acontece à bateria de um elétrico com o passar dos anos?
Durante anos, uma das maiores dúvidas em torno dos carros elétricos foi relativamente simples: O que acontece quando a bateria começa a envelhecer?
Os primeiros elétricos modernos começaram a chegar ao mercado há mais de uma década. Isso significa que já existe uma quantidade relevante de veículos com vários anos e muitos milhares de quilómetros, permitindo perceber melhor como estas baterias envelhecem com a utilização real.
E os resultados estão a ser melhores do que muitos compradores esperavam.
O The Wall Street Journal, numa peça jornalística que reúne este caso real e dados da Geotab e da Recurrent, destacou um Tesla Model 3 com cinco anos e cerca de 397.000 km, que continua a ser utilizado regularmente em viagens longas. É apenas um caso individual, mas acompanha uma tendência que começa a aparecer em análises com amostras muito maiores.
Afinal, quanto dura a bateria de um carro elétrico?
Não existe um número de anos ou quilómetros que possa ser aplicado a todos os carros elétricos.
A longevidade depende do modelo, da tecnologia utilizada nas baterias, do sistema de gestão térmica, do software, das temperaturas a que a bateria esteve exposta, da forma como o carro foi carregado durante a sua vida e, claro, da utilização.
Apesar destas variáveis, a quantidade de dados acumulados já permite ter uma referência clara.
A Geotab analisou informação real de mais de 22.700 veículos elétricos de 21 modelos diferentes e encontrou uma degradação média de aproximadamente 2,3% por ano.
Nos modelos com histórico mais longo analisados pela Geotab, vários apresentavam mesmo taxas de degradação inferiores à média. O estudo conclui que fatores como química, gestão térmica, tipo de automóvel e hábitos de carregamento têm um impacto significativo no resultado.
Outro conjunto de dados interessante vem da Recurrent, empresa especializada na monitorização de baterias de veículos elétricos. Segundo a sua análise, um elétrico mantém em média cerca de 97% da autonomia ao fim de três anos e 95% ao fim de cinco anos.
Manter 95% da autonomia não significa ter 95% da bateria original
A autonomia e a saúde da bateria estão relacionados, mas não são exatamente a mesma coisa. Uma bateria envelhece inevitavelmente com o passar do tempo e dos ciclos de utilização, mas a autonomia real depende também de outros fatores.
Os fabricantes podem melhorar a eficiência do veículo através de software, alterar a gestão energética ou disponibilizar gradualmente parte da capacidade da bateria que estava inicialmente “bloqueada”. Por esse motivo, um carro pode manter uma autonomia semelhante durante vários anos apesar da degradação das células da bateria.
A própria Recurrent chama a atenção para esta diferença: os 95% referem-se à autonomia observada e não significam necessariamente que a bateria mantenha 95% da sua capacidade original.
É aqui que entra um indicador cada vez mais relevante nos carros elétricos: o State of Health, normalmente abreviado para SOH.
O que é o State of Health (SOH) de uma bateria?
O SOH representa, de forma simplificada, o estado atual da bateria relativamente à sua capacidade quando era nova.
Imagine um elétrico que saiu de fábrica com 60 kWh de capacidade útil. Se atualmente a bateria consegue armazenar aproximadamente 54 kWh, isso corresponderia, de forma simplificada, a um SOH próximo dos 90%.
Uma bateria com 90% de SOH não está avariada, apenas perdeu 10% da capacidade original. Na utilização diária, isso poderá traduzir-se numa redução da autonomia.
Por exemplo, se determinado automóvel percorre 400km com uma carga completa em novo, uma perda de capacidade de 10% significa que a autonomia passará a ser cerca de 360km na teoria. A diferença real nunca é tão simples como aplicar diretamente uma percentagem, porque a temperatura, velocidade, pneus, percurso e eficiência também influenciam bastante o consumo.
O ponto importante é que a degradação não significa a falha da bateria. É simplesmente o desgaste normal da utilização, podendo continuar a utilizar normalmente o carro.
É comum substituir a bateria de um elétrico?
Este é provavelmente um dos maiores receios de quem considera comprar um carro elétrico usado: a necessidade de ter de substituir a bateria num futuro próximo.
Os dados disponíveis sugerem que uma substituição integral da bateria é relativamente pouco comum, sobretudo nos modelos mais recentes.
A Recurrent acompanha uma comunidade de mais de 30.000 veículos elétricos. Excluindo grandes campanhas de recall, menos de 4% dos automóveis acompanhados tiveram uma substituição da bateria, incluindo veículos com mais de dez anos.
Quando os veículos são separados por gerações, a evolução tecnológica torna-se ainda mais evidente:
Os primeiros elétricos estavam naturalmente mais expostos a este problema. Além de já terem mais idade, utilizavam baterias mais pequenas e sistemas de gestão térmica e eletrónica menos evoluídos.
Mas seria errado olhar para os 0,3% dos modelos recentes em que se observou uma substituição da bateria e concluir que 99,7% das baterias dos elétricos modernos vão durar toda a vida do carro.
Há um problema evidente: os carros de 2022 para a frente ainda não tiveram tempo para envelhecer.
A própria Recurrent reconhece essa limitação e refere que cerca de 75% dos elétricos atualmente em circulação na sua análise foram vendidos em 2023 ou posteriormente. Os dados indicam que as baterias modernas podem manter capacidade útil durante muitos anos e, em muitos casos, acompanhar a vida útil do automóvel.
A Geotab aponta para cerca de 13 anos ou mais com base nas taxas observadas, mas ainda não existe histórico suficiente para estabelecer uma duração universal de 15 ou 20 anos.
Porque é que as baterias mais recentes duram mais?
Os carros elétricos atuais beneficiam de mais de uma década de evolução na tecnologia das baterias. Os sistemas de gestão térmica, por exemplo, conseguem manter as células numa gama de temperatura mais adequada durante a condução e o carregamento.
O Battery Management System (BMS) controla permanentemente fatores como temperatura, tensão e estado de carga e pode limitar determinadas operações para proteger a bateria.
Também existem diferenças importantes nas próprias baterias utilizadas. Uma bateria LFP tem características diferentes de uma bateria NMC, mesmo sendo ambas baterias de iões de lítio. Cada solução procura compromissos diferentes entre densidade energética, peso, custo, potência e longevidade.
Por isso, falar da "bateria de um elétrico" em termos gerais como se todos os modelos utilizassem exatamente a mesma tecnologia é enganador.
O carregamento rápido estraga a bateria?
Estes dados não obrigam a evitar os carregadores rápidos, mas mostram que uma utilização muito frequente de carregamento DC de elevada potência pode acelerar a degradação.
No estudo da Geotab, os veículos que utilizavam carregamento rápido DC em menos de 12% das sessões apresentavam uma degradação média de cerca de 1,5% por ano.
Quando mais de 12% dos carregamentos eram feitos em DC, a média subia para aproximadamente 2,5%. No grupo que combinava carregamentos DC frequentes com uma utilização elevada de potências superiores a 100 kW, a degradação média chegou aos 3% por ano.
Ou seja, fazer uma viagem pontual e recorrer a vários carregadores rápidos não danifica a bateria. O que os dados mostram é uma diferença entre utilizar carregamento rápido quando é necessário e fazer dele a principal forma de carregar o automóvel ao longo de vários anos.
Quando o carro fica estacionado durante várias horas, carregar em AC e a uma potência mais baixa tende a ser uma solução mais favorável para a longevidade da bateria.
É preciso andar sempre entre os 20% e os 80%?
É provavelmente uma das regras mais repetidas entre proprietários de elétricos, mas também merece algum contexto.
Não existe problema em carregar ocasionalmente a bateria até aos 100% quando precisa da autonomia adicional, tal como não acontece uma catástrofe se chegar a casa com 5% ou 10%.
Os resultados da Geotab sugerem que a degradação se torna mais significativa quando um automóvel passa mais de 80% do seu tempo em estados de carga muito elevados ou muito baixos, o que é muito diferente de carregar até aos 100% pontualmente antes de uma viagem.
Também devem ser seguidas as recomendações específicas de cada fabricante. Alguns veículos, particularmente os equipados com determinadas baterias LFP, podem ter recomendações de carregamento diferentes de modelos com outras químicas.
O calor também influencia a degradação
A temperatura é outro dos fatores que afeta o envelhecimento de uma bateria.
Segundo a Geotab, os automóveis utilizados em climas considerados quentes apresentaram, em média, cerca de 0,4 pontos percentuais adicionais de degradação anual relativamente aos utilizados em climas mais moderados.
Mais uma vez, os sistemas modernos de gestão térmica ajudam a reduzir este impacto.
E se estiver a importar um carro elétrico usado?
É provavelmente aqui que estes dados se tornam mais interessantes.
Num automóvel a combustão usado, a quilometragem é tradicionalmente um dos primeiros números que analisamos. Um carro com 50.000 km e outro com 200.000 km são avaliados e valorizados de forma bastante diferente.
Um elétrico com 150.000 km não tem obrigatoriamente uma bateria em pior estado do que outro com 80.000 km. O primeiro pode ter sido carregado maioritariamente em casa, ter uma boa gestão térmica e um histórico de utilização favorável. O segundo pode ter passado grande parte da sua vida a recorrer a carregamentos rápidos e a temperaturas elevadas.
É por isso que, ao analisar um elétrico usado, faz todo o sentido olhar para o SOH da bateria, autonomia atual, garantia restante, sistema de gestão térmica e histórico de problemas comuns do modelo.
Então devemos deixar de nos preocupar com a bateria?
Não, a bateria é um dos componentes mais caros de um automóvel elétrico e uma eventual avaria fora da garantia pode representar uma despesa muito elevada.
A conclusão dos dados disponíveis é mais moderada: o cenário parece ser bastante melhor do que o receio de que um elétrico fique inevitavelmente inutilizável ao fim de alguns anos.
A Geotab conclui, com base nos mais de 22.700 veículos analisados, que as baterias modernas apresentam uma longevidade compatível com uma utilização prolongada do automóvel. A Recurrent também encontra poucas substituições entre os modelos recentes, embora saliente que ainda não exista informação suficiente para determinar definitivamente a vida útil das baterias das gerações mais modernas.
Em suma, a longevidade real das baterias provou ser superior aos receios iniciais, tornando a avaliação técnica do SOH e do histórico do veículo um fator essencial na escolha de um elétrico usado.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura a bateria de um carro elétrico?
Não existe uma duração que possa ser aplicada a todos os elétricos. Os dados atuais mostram que as baterias modernas estão a degradar-se lentamente e podem permanecer utilizáveis durante muitos anos. A Geotab encontrou uma degradação média de 2,3% por ano em mais de 22.700 veículos analisados.
Quantos quilómetros aguenta uma bateria de um carro elétrico?
Também não existe um limite universal de quilómetros. Já existem carros elétricos com várias centenas de milhares de quilómetros e a bateria original ainda em utilização. Modelo, tipo de bateria, temperatura, carregamento e utilização são tão ou mais importantes que a quilometragem.
Que capacidade perde a bateria de um elétrico por ano?
A análise mais recente da Geotab encontrou uma degradação média de cerca de 2,3% por ano, mas este valor varia consideravelmente entre automóveis e tipos de utilização.
Uma bateria com 70% de capacidade tem de ser substituída?
Não necessariamente. Ter 70% da capacidade original significa que a bateria perdeu autonomia mas continua funcional. A necessidade de substituição depende da existência de uma avaria e de a autonomia restante continuar ou não a ser suficiente para a utilização do automóvel.
Carregar sempre até aos 100% estraga a bateria?
Embora carregar ocasionalmente até 100% não danifica a bateria, deve evitar-se, quando possível, manter o veículo durante períodos muito prolongados em estados de carga extremos.
O carregamento rápido degrada a bateria?
Pode contribuir para uma degradação mais rápida quando é utilizado frequentemente e a potências elevadas. No estudo da Geotab, os veículos com utilização frequente de carregamento DC superior a 100 kW apresentaram uma degradação média superior aos que recorriam principalmente a carregamentos de menor potência.
Como saber o estado da bateria de um elétrico usado?
O indicador mais útil é o State of Health (SOH), que permite estimar a capacidade atual da bateria relativamente ao seu estado original. Dependendo do modelo, esta informação pode ser obtida através do próprio veículo, ou de ferramentas de diagnóstico específicas.
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